Edital

2020-2: MULHERES, ARQUITETURA E CIDADE EM TEMPOS DE CRISE

 

Concluída a segunda década do Século XXI, falar sobre o papel de arquitetas, urbanistas e designers na cultura e no ambiente construído não é mais uma novidade, felizmente. Um corpo crescente de estudos, debates e publicações nos mais diversos âmbitos, da política às áreas criativas, vêm promovendo o reconhecimento da presença, contribuição e protagonismo de mulheres dos mais variados grupos e comunidades.

Historicamente, espaços de atuação possíveis para as mulheres latino-americanas  foram encontrados nos âmbitos da palavra escrita. Publicando em revistas e jornais como editoras e colunistas, produzindo livros e resenhas, as arquitetas, urbanistas e designers participaram ativamente da construção de perspectivas sobre o desenvolvimento de seus campos profissionais, desde as primeiras décadas do século XX.

Foi também no século passado que a esfera da habitação, compreendendo o projeto de residências, de seus jardins, interiores e utensílios, representou a possibilidade que muitas mulheres encontraram para projetar e também construir - às vezes como autônomas e titulares de seus escritórios - mas em geral anônimas, associadas a seus maridos ou trabalhando em escritórios de colegas homens. No âmbito do serviço público abriram-se várias oportunidades de empregos que as mulheres aproveitaram, o que explica a riquíssima variedade de testemunhos de arquitetas e urbanistas com passagem por prefeituras e outros órgãos governamentais.

A principal fronteira a ser cruzada pelas arquitetas e urbanistas foi representada pelos projetos públicos e privados de prestígio: sedes de governos, bancos e empresas, museus, centros culturais, residências sofisticadas e outros projetos permaneceram, no século XX, como domínio preferencial de arquitetos do sexo masculino. Por sua vez, as abordagens historiográficas arquitetônicas mais disseminadas foram aquelas que valorizavam principalmente este tipo de produção, muitas vezes omitindo a autoria das protagonistas e colaboradoras mulheres, ou registrando seus nomes apenas com as iniciais seguidas do sobrenome.

De modo similar, nos variados campos de atuação do Design, as fronteiras mantiveram--se nos limites da liderança de escritórios, dos trabalhos de prestígio e do reconhecimento de nomes de mulheres nas narrativas históricas e teóricas predominantes. Tanto na arquitetura e no urbanismo quanto no design, os discursos sobre o protagonismo das mulheres restringiram-se por muito tempo, principalmente a seus papeis de usuárias dos espaços e produtos, e não de suas criadoras.

Com a emergência da crise mundial decorrente da pandemia de COVID-19, doença respiratória aguda causada pelo novo coronavírus, o protagonismo das mulheres na política e nas ciências de saúde ganhou destaque nos meios de comunicação internacionais. Frente à epidemia que até o lançamento desta chamada havia contaminado mais de 6 milhões de pessoas causando número de mortes superior a 370 mil[1], lideranças femininas na política, na ciência e nos movimentos sociais fizeram a diferença.

Países liderados por mulheres têm mostrado respostas mais eficazes na prevenção à transmissão da doença, realização em grande escala de testes e promoção de tratamento aos contaminados. Angela Merkel, na Alemanha, Tsai Ing-wen em Taiwan, Jacinda Arden na Nova Zelândia, Katrín Jakobsdóttir na Islândia, Sanna Marin na Finlândia, Erna Solberg na Noruega e Mette Frederiksen na Dinamarca obtiveram melhores resultados em proteger e tratar suas populações, conseguindo retomar as atividades econômica de seus países de modo seguro.

No Brasil, a médica Ester Cerdeira Sabino realizou o mapeamento genético do coronavírus, coordenando uma equipe de 27 pessoas, 17 das quais mulheres. Na Universidade de Oxford, Reino Unido, a imunologista brasileira Daniela Ferreira está a frente da testagem de uma das 70 vacinas contra o vírus atualmente sendo desenvolvidas ao redor do planeta. No âmbito dos movimentos sociais por habitação digna, a advogada Maria da Graça Xavier, coordenadora geral da União de Movimentos de Moradia e Carmen Silva, do Movimento Sem Teto do Centro, lideram ações de cadastramento da população para recebimento de auxílios, tratamentos e kits de higiene, bem como promovem ações de orientação à prevenção e aos cuidados com a doença.

Com este complexo cenário em vista, este número do “Cadernos de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo” convida autoras e autores a levar adiante as reflexões contemporâneas sobre o protagonismo das mulheres, profissionais ou não, em campos de atuação afetos à Arquitetura, Urbanismo e Design.

Convidamos contribuições aos seguintes eixos de discussão: a identificação e reconhecimento das autoras eclipsadas; os meios e modos de contribuição das autoras em seus universos de trabalho; a análise de como as criadoras mulheres são abordadas nos discursos históricos e teóricos sobre arquitetura, urbanismo e design; a contribuição das mulheres no âmbito das vulnerabilidades sociais e territoriais; as perspectivas feministas na pesquisa em arquitetura, urbanismo e design; o protagonismo das estudantes de arquitetura tanto em sua trajetória acadêmica como na promoção do reconhecimento das mulheres e as condições específicas que enfrentam em sua formação e percurso profissional; protagonismo das mulheres em tempos de crise.

[1] Fonte: Johns Hopkins CSSE

 

Data limite para envio dos artigos: 31 de Julho de 2020.

 

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