Informações para Leitores

Submissões abertas para os volumes 2019 1 e 2019 2

 

EDITAL 2019.1

Prazo final envio artigos: 20/11/2018

Arquitetura e Política

Ana Gabriela Godinho Lima

A chamada para a edição de 2019-1 do “Cadernos de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo” destaca um dos maiores problemas hoje enfrentados pelos países latino-americanos: o aumento exponencial do número de pessoas que residem em áreas urbanas. Hoje 85% da população da América Latina vive nas cidades, em grande parte com algum grau de precariedade e carentes de infraestrutura essencial. Com urbanização incompleta, estes locais estão sujeitos a riscos ambientais e à violência. A escala dos problemas sociais e urbanos nos leva a dirigir mais e mais esforços no sentido de dar não apenas visibilidade, mas também voz às angústias, necessidades e anseios das pessoas que vivem em situações urbanas inaceitáveis, de pobreza, marginalidade e exclusão.


A legitimidade da produção cultural e dos valores das comunidades instaladas em situação precária nas cidades tem sido cada vez mais reconhecida, merecendo atenção e transformando abordagens não apenas de arquitetas, arquitetos e urbanistas. Observa-se que o conjunto de manifestações culturais, de modos de produção e de vida nas diferentes comunidades habitando territórios informais, forma padrões complexos, em vários níveis e escalas, desafiando as lógicas e modos tradicionais de se estudar e interpretar essas manifestações. Nos últimos anos ganharam força os estudos e discussões acerca da proposição de desenhos urbanos participativos, que levem em conta, por exemplo, a escala e o desenvolvimento de crianças. Também se fortalece a ideia de cidades igualitárias, onde não só o desenho, mas também as decisões políticas contem com a participação equilibrada de mulheres e homens.

Autoras e autores como o arquiteto Nabil Bonduki e a arquiteta Raquel Rolnik vêm mantendo na agenda política as discussões sobre as condições de precariedade nas cidades e a preocupação com as condições de moradia e vida das pessoas mais pobres. Em 2014, Bonduki enfatizou a importância da superação de pensamentos retrógrados, como a dificuldade de aceitação, por setores das classes mais altas, do convívio e mistura com outras classes sociais. “É importante combater essa homogeneidade porque buscamos uma cidade menos desigual”. (Bonduki, in: Lamas, 2014)

Em seu livro A Cidade e a Lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo (1997), Rolnik já ponderava sobre o que considerou um dos aspectos mais interessantes da lei: o fato de, por um lado, aparentemente funcionar como uma “espécie de molde” da cidade ideal ou desejável e, por outro lado, determinar apenas a menor parte do espaço construído, uma vez que a forma concreta da cidade emerge das relações estabelecidas com as práticas de produção imobiliária.

Entretanto, como prossegue a autora, “ao estabelecer formas permitidas e proibidas acaba por definir territórios dentro e fora da lei, ou seja, configura regiões de plena cidadania e regiões de cidadania limitada.” Não apenas a lei se torna um marco delimitador de exercício de cidadania, mas, no caso das cidades latino-americanas, constituídas em grande parte por territórios informais, tem o efeito de relacionar diferenças culturais com sistemas hierárquicos. (Rolnik, 1997, p. 13-14)
Uma das questões com a qual a profissão da arquitetura e urbanismo se depara situa-se justamente nas tensões que emergem desta problemática: a relação das diferenças culturais expressas nas construções erguidas em áreas de vulnerabilidade com os sistemas hierárquicos que tendem a posicioná-las como algo tão precário como o território que ocupam. E isso não é inteiramente verdadeiro. Por outro lado, a mesma relação “diferença cultural x escala hierárquica” tende a posicionar o conhecimento produzido pelo projeto de arquitetura como algo pertencente ao outro polo, ou seja, destinado ao mundo da formalidade e do capital. E isso, definitivamente, não é verdade.

Do ponto de vista da representação política, cabe refletir sobre os caminhos para a construção de articulações mais estreitas entre os conhecimentos e as contribuições provindas da Arquitetura e do Urbanismo e as agendas globais e locais de combate às desigualdades, como a social e a de gênero, e de oferta de serviços de saúde, educação, cultura, bem como a promoção de melhores condições para o desenvolvimento das crianças. Para tornar-se realidade, cada uma dessas pautas necessita de um suporte físico projetado e construído que a abrigue, e de infraestrutura urbana projetada e construída que permita sua implementação e funcionamento.

A ideia de que os conhecimentos provindos do projeto de arquitetura impõem-se de modo autoritário no território informal esvazia-se ao examinarmos o real. Como se sabe, o real nem sempre está ao alcance do google. Arquitetas e arquitetos trabalhando diligentemente há décadas em territórios precários em colaboração com comunidades vulneráveis não são facilmente visíveis à luz das buscas virtuais. Talvez tal “invisibilidade” seja uma das razões pelas quais a contribuição deste contingente de profissionais não venha sendo reconhecida, nem alvo de tantos estudos e tanta visibilidade quanto seria desejável. Este conjunto de profissionais possui uma característica em comum: divulga muito pouco o resultado de seus trabalhos. E é justamente da ação no território que pode surgir e emanar a inovação que, quando articulada à pesquisa, pode abrir novos caminhos com grande potencial de escala e de transformação na redução das desigualdades.

Como reconhecer, analisar, sistematizar e dar a devida visibilidade aos conhecimentos de projeto e construção que vêm sendo desenvolvidos na prática, e pela prática de trabalho nas comunidades e com as comunidades, de modo a que elas assumam o papel relevante que precisam ter nas pautas e agendas políticas, locais e internacionais?

Em síntese, com o propósito de ampliar o debate sobre as realidades concretas em que arquitetas, arquitetos e urbanistas vêm trabalhando para transformar os territórios urbanos precários em lugares melhores para se viver, inclusivos, acessíveis, sustentáveis e, acima de tudo, humanos, este número da revista convida a refletir sobre as pautas que as ciências da Arquitetura e do Urbanismo têm a propor para os planos de governo de candidatas e candidatos, para a formulação de políticas públicas e para a construção de agendas locais e mundiais de desenvolvimento.

Referências bibliográficas
Lamas, Julio. Entrevista com Nabil Bonduki sobre o Novo Plano Diretor de São Paulo. Archdaily, 03 Dezembro de 2014. Disponível em <https://www.archdaily.com.br/br/758385/entrevista-com-nabil-bonduki-sobre-o-novo-plano-diretor-de-sao-paulo>. Acessado em 03 de Julho de 2018.

Rolnik, Raquel. A Cidade e a Lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo. São Paulo: FAPESP/Studio Nobel, 1997.

 

EDITAL 2019.2

Prazo final envio artigos: 30/11/2018

Cartografando ações no Território: diálogos Arquitetura Cidade Design

Maria Isabel Villac

Para contribuir com o projeto da cidade, a presente chamada de artigos para 2019-2 propõe publicar cartografias de microdinâmicas sócio espaciais que tenham como foco gerar projetos de pesquisa, extensão, arquitetura e urbanismo, bem como discutir significados e reflexões teóricas e programas que delas podem se originar. Dessa quer expandir o repertório de saber do Projeto que ampara e agencia a pluralidade da dinâmica da vida urbana, interrogar a crise da noção de cidade enquanto bem público, lugar do convívio e do conflito. E, em busca de uma relação interdisciplinar e multidisciplinar da arquitetura da cidade e do edifício e o design de artefatos com outras áreas do saber, privilegia as práticas urbanas com foco na sua relação com morfologias, tipologias e suportes e propõe compreendê-las como argumento do texto e das ações de projeto.

Na produção de significado sobre a vida pública, é necessário reconhecer que o desejo de uma vida pública, vitalizada e que se expressa primordialmente através de Práticas do cotidiano, as Culturas de convivência e o Corpo como paradigma da experiência, não pressupõe uma ordem comumente assumida pelo projeto da arquitetura e do urbanismo. Da mesma forma, o conceito de patrimônio imaterial ainda não contempla ações cotidianas como parte dos caráteres de domínio público, caracterizados por distintas situações discursivas, atividades transitórias, múltiplos públicos. (VILLAC et al, 2015).

Na cidade que apresenta novas formas de enunciação cultural da territorialidade urbana qual seria a ação do projeto associado a apropriações espontâneas e efêmeras apoiadas em estruturas físicas ordinárias da cidade? Como o projeto se solidariza com a densidade inesperada do "real vivido" (LEFEBVRE 1976) e, a exemplo da arte, valoriza a cidade consolidada com suas obras já produzidas (BOURRIAUD, 2009)? Dada a complexidade dos processos de produção e utilização das cidades, como a teoria se renova, se atualiza no sentido do vínculo com a realidade, entendendo-se “vínculo” como investigação, leitura e futura prospecção?

A presente edição do CadernosPós quer conhecer pesquisas e projetos que colocam grande estoque na poética do uso e apropriação no uso público do espaço, e trabalham com vestígios (GINZBURG, 1989) e novos protocolos de uso das estruturas formais existentes, entendidas "como suporte de experiências".
Para tal, sugere ênfase nas práticas que questionam a tradicional separação, no projeto, entre a autonomia da concepção e o compromisso que incorpora uma experiência previa de espaço. A "experiência" diz respeito ao uso público do espaço e sugere a ressignificação do vínculo cidade-arquitetura-artefato, com vistas ao entendimento do território como espaço material e espaço social (SANTOS, 1994); às "táticas" (CERTEAU 2011) que escapam das "estratégias" que excluem (ARANTES, 2007) e ao projeto que desenha uma "urbanidade" que controla e programa comportamentos (KOOLHAAS, 2010, p. 96).

O urbanista, o arquiteto, o designer que aprende com a experiência se aproximam e se envolvem com a dinâmica urbana e, também ele, se assume como sujeito da experiência. O sujeito da experiência abandona uma "fé perceptiva" que se apoia somente em um saber erudito que se impõe. Tem a possibilidade de renovar o urbanismo, a arquitetura e o design na relação intrínseca entre teoria e prática e projetar, não uma criação livre e compositiva, mas sim uma "resposta direta às exigências da vida e cujo projeto não pretende ser inventivo, mas essencialmente crítico" (ARGAN 1961, p. 23).

Referências bibliográficas

ARANTES, Otília, “Uma estratégia fatal: a cultura nas novas gestões urbanas”. In: ARANTES, Otília; VAINER, Carlos; MARICATO, Ermínia. A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. Petrópolis: Ed. Vozes, 2007.

ARGAN, Giulio Carlo (1961). El concepto del espacio del barroco a nuestros días, curso proferido em Tucumán em 1957. Buenos Aires: Nueva Visión, 1961.

BOURRIAUD, Nicolas. Pós-produção: como a arte reprograma o mundo contemporâneo. São Paulo: Martins, 2009.
CERTEAU. Michel de (1990). A invenção do cotidiano – 1. Artes do fazer. 17ª. edição. Petrópolis: Vozes, 2011.

GINZBURG, Carlo (1986). “Sinais: Raízes de um paradigma indiciário”. In: Mitos, emblemas sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, pp. 143-179.

KOOLHAAS, Rem. "Espaço lixo". In: Três textos sobre a cidade. Barcelona: Gustavo Gili, 2010, pp. 67-111.

LEFEBVRE, Henri. La revolución urbana. Madri: Alianza Editorial S. A. 1976.

SANTOS, Milton. "O retorno do território". In: SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia; SILVEIRA, Maria Laura. Território: globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994.

VILLAC. M. I.; RUBANO, L. M.; KATO, V. R. C.; FEHR, L. "Patrimônio das “Artes do Fazer”". In: VII Fórum Mestres e Conselheiros: Agentes multiplicadores do Patrimônio. “Os desafios da educação patrimonial”. Belo Horizonte/MG: Instituto IEDS; MACPS; Ministério Público Estadual; IPHAN; IEPHA; Centro Universitário Izabela Hendrix, 2015. Eixo 8: A cidade, lugar da educação patrimonial. Artigo no. 138.