Desdobramentos culturalistas dos manifestos modernistas à luz de uma teoria crítica

Rubens Russomanno Ricciardi

Resumo


Propomos inicialmente uma crítica conceitual na discussão de termos como cultura, indústria da cultura (Kulturindustrie), identidade, relativismo contextual e relativismo absoluto, bem como a relação ideológica que os envolve. Se por um lado, o relativismo contextual é necessário em estudos históricos, sociológicos, antropológicos e demais questões culturais, já de modo diverso, o relativismo absoluto (culturalismo) se torna
inadequado em questões da arte e da filosofia. Problematizamos, com Heidegger, a inserção da arte e da filosofia entre os bens culturais. Também se estuda a distorção ideológica atrelada a uma pseudoestética (sem dimensão
verdadeiramente filosófica) nos culturalistas, por conta da postura antielitista, antiaristocrática e politicamente correta. Por seu forte envolvimento com a indústria da cultura, os culturalistas ignoram ou mesmo desaprenderam o que seja poíesis na arte, confundindo arte e filosofia com indústria da cultura. Desde seus primórdios, na primeira metade do século XX, a indústria da cultura vem se afastando gradativamente da arte, não só se tornando cada vez mais distante e apartada da arte, como também consolidando seus próprios mecanismos enquanto sistema ideológico. Na indústria da cultura há uma incontornável condição de obsolescência, e a grande arte, por
não ser datada e por transcender a cultura, permanece sempre atual e instigante. Procuramos ainda definir direita e esquerda política, o conceito de teoria e, em relação à Escola de Frankfurt, o conceito de teoria crítica. Após essas questões conceituais, o artigo levanta a hipótese de trabalho de que os manifestos modernistas de Oswald de Andrade podem ser a origem de alguns clichês cristalizados entre culturalistas brasileiros na tentativa de forjar identidades, sem reconhecê-las enquanto distorções ideológicas. É possível que os projetos de Oswald
de Andrade por uma arte de esquerda tenham se transformado numa cultura de direita. Por conta da memória distorcida dos culturalistas ocorre uma confusão entre estética e poética, pois os manifestos poéticos de Oswald de Andrade são lidos hoje enquanto teoria da arte e fora de seu contexto original. O artigo aponta também o anacronismo evidente quando, por meio da irreverência modernista que culminou com uma historiografia tendenciosa, os culturalistas promovem uma memória distorcida ao rotular pejorativamente toda produção intelectual e artística do Brasil Colônia e do século XIX enquanto mera imitação de supostos padrões europeus, como se os modernistas tivessem sido os fundadores do pensamento e da arte brasileira. Por fim, inserimos uma tabela com as diferenças mais evidentes entre culturalismo e teoria crítica, justamente para que possamos compreender melhor os problemas culturais e artísticos de nossos tempos, separando mais claramente essas duas vertentes epistemológicas.

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