“É um fardo que a gente carrega pela história da outra”: profissionais que atendem mulheres em situação de violência

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Júlia Carvalho Zamora
https://orcid.org/0000-0002-9256-1336
Laura Aime de Oliveira Inda
https://orcid.org/0009-0002-2126-9247
Daniela Farina Cassol
https://orcid.org/0009-0004-2225-528X
Ana Bárbara Silva Farias
https://orcid.org/0009-0000-9429-0181
Luísa Fernanda Habigzang
https://orcid.org/0000-0002-0262-0356

Resumo

Trabalhar com violência contra mulheres implica desafios que vão desde as condições para realização do trabalho até consequências pessoais a partir da exposição constante à violência. Considerando os desafios intrínsecos e a precarização desse trabalho, este estudo buscou explorar as consequências percebidas do trabalho para a vida pessoal de profissionais, bem como compreender a motivação para que possam atuar em casos de violência contra mulheres e conhecer as estratégias de enfrentamento utilizadas para cuidado com a saúde mental. Entrevistaram-se 15 profissionais da rede de atendimento, e posteriormente as entrevistas foram analisadas por meio de análise temática. A partir das entrevistas, cinco temas emergiram: efeitos decorrentes do trabalho; atravessamentos de gênero; ressignificação do histórico pessoal de violência; papel como profissional; e desafios estruturais nas políticas públicas. Consequências percebidas incluíram impactos nas relações íntimas e práticas parentais, oscilação de humor, traumatização vicária, dessensibilização da violência, intrusão do trabalho na vida pessoal, ressignificação do histórico de violência e rompimento de mitos sobre violência de gênero. Já as estratégias encontradas foram a menor exposição a conteúdos violentos, isolamento social, distanciamento do trabalho, reconhecer papel no trabalho e experiências exitosas, participação em movimentos sociais e práticas individuais de autocuidado. Evidencia-se a complexa gama de fatores associados às condições de trabalho na Rede de Atendimento a Mulheres que envolvem fatores individuais, relacionais, sociais e políticos. Estudos futuros necessitam priorizar o desenvolvimento e a avaliação de programas para promoção de saúde, ao passo que políticas públicas para essa categoria também devem ser agenda por parte do Estado.

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Seção
Psicologia Social e Saúde das Populações

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