Dossiê: A epistemologia da complexidade e o “fazer” interdisciplinar.
A prática de pesquisa interdisciplinar tem ganhado cada vez mais destaque no mundo, porém o próprio conceito de interdisciplinaridade frequentemente gera ambiguidades e equívocos que podem dificultar sua implementação. Tanto nas reflexões de profissionais da Área quanto na vasta produção acadêmica dedicada ao tema, observa-se uma diversidade de definições e abordagens que revelam divergências significativas.
Ao mesmo tempo, nas últimas décadas, após o surgimento e o desenvolvimento da Área Interdisciplinar da CAPES, outras Áreas têm se tornado cada vez mais colaborativas e interdisciplinares, impulsionadas pelo reconhecimento da complexidade dos problemas e enigmas do mundo real que cruzam as fronteiras do conhecimento, cultura, educação, economia, política, ciência, arte, tecnologia e religião. Esse avanço é uma resposta ao desenvolvimento da disciplinarização acadêmica clássica que remonta à especialização do século XIX, a qual considera o objeto como centro de interesse da pesquisa e o que vem do sujeito como uma imperfeição ou uma deformação da verdade.
No contexto atual, a pesquisa compartilhada e desenvolvida em conjunto, estimula a troca de ideias entre seus domínios disciplinares, desenvolve comunidades híbridas de conhecimento e fornece uma resposta crucial a uma mudança de paradigma científico, ao mesmo tempo em que amplia a capacidade de análise e a eficácia na resolução daqueles desafios. Assim, a complexidade não apenas caracteriza o cenário atual, mas também se consolida como um fator central para o fortalecimento da interdisciplinaridade que passa a responder às principais estratégias epistemológicas do cânone científico ocidental (Thorén, 2015; Maki, 2016; O'Rourke et al., 2016; Thürler, 2024).
Hoje é possível afirmar, por exemplo, que abordagens explicitamente interdisciplinares são uma maneira inovadora de integrar perspectivas disciplinares, tais como os casos dos estudos de gêneros, sexualidades, etnia, desigualdade social, ambientais e de segurança pública, entre outros campos, que implicam não apenas a interpenetração de fronteiras disciplinares, mas também, mais fundamentalmente, uma releitura metacognitiva das formas pelas quais reestruturamos o próprio conhecimento (Newell, 1998) e, mais do que isso, escolhemos mudar de postura quanto ao conhecimento (Monteiro, Rodrigues, Marques, 2016)
Este dossiê pretende explorar essa pluralidade conceitual, analisando o debate semântico a partir de uma epistemologia para a investigação interdisciplinar (Interdisciplinary Research/IDR). O foco está na questão de saber por que razão os investigadores sentem dificuldades epistêmicas na condução da IDR. O tema abrange uma ampla gama de aspectos que dialogam com a construção do conhecimento, os desafios da integração disciplinar e as bases filosóficas e metodológicas que sustentam práticas interdisciplinares, a partir de algumas linhas de interesse, tais como:
Fundamentos Epistemológicos da Interdisciplinaridade; Origens e evolução histórica da interdisciplinaridade; Diferenças entre multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade; Principais correntes filosóficas que sustentam o pensamento interdisciplinar; Interdisciplinaridade como postura epistemológica; Métodos e abordagens para a pesquisa interdisciplinar; Estratégias de integração entre diferentes Áreas do Conhecimento; O papel das Ciências Sociais, Arte e Humanidades na interdisciplinaridade; Saúde, meio ambiente e políticas públicas sob uma perspectiva interdisciplinar; Desafios e limitações metodológicas da interdisciplinaridade; Interdisciplinaridade na pesquisa acadêmica e nas políticas científicas; A interdisciplinaridade na inovação tecnológica e sustentabilidade; A interdisciplinaridade na CAPES e nos programas de pós-graduação no Brasil; Modelos de financiamento e avaliação de pesquisas interdisciplinares; O impacto da interdisciplinaridade no mercado de trabalho e na formação profissional; Experiências institucionais bem-sucedidas de promoção da interdisciplinaridade; Desafios Contemporâneos da Interdisciplinaridade; A fragmentação do conhecimento e os limites da especialização; Ética e interdisciplinaridade: implicações filosóficas e sociais; Inteligência artificial e ciência de dados: novas fronteiras para a interdisciplinaridade.
Referências
MAKI, U. (2016). Philosophy of interdisciplinarity. What? Why? How? European Journal for Philosophy of Science, 6(3), 327–342. https://doi.org/10.1007/s13194-016-0162-0.
MONTEIRO, L. M; RODIGUES, D.F; MARQUES, V. T. (2016). Experiências de Pesquisa Interdisciplinar. Caminhos e alternativas para fenômenos complexos. Rio de Janeiro, Editora Bonecker.
NEWELL, W.H. (1998). Professionalizing interdisciplinarity. In W.H. NEWELL (Ed.), Interdisciplinarity: Essays from the literature (pp. 529-563). New York: The College Board.
O'ROURKE, M.; CROWLEY, S.; GONNERMAN, C. (2016). On the nature of cross-disciplinary integration: A philosophical framework. Studies in History and Philosophy of Science Part C, 56, 62–70. https://doi.org/10.1016/j.shpsc.2015.10.003.
THÜRLER, D. (2024) Um mundo melhor para um número maior de pessoas. In Revista da ANINTER-SH, 1, p.p.1–9.
THORÉN, H. (2015). The hammer and the nail: interdisciplinarity and problem solving in sustainability science. PhD thesis. Lund University.