Ensino – Projeto, Programas, Abordagens, Instrumentos, Questões

Ana Gabriela Godinho Lima

Resumo


A chamada de artigos para o primeiro volume de 2018 dos Cadernos de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo procurou promover reflexões sobre o ensino de arquitetura e urbanismo por meio de perspectivas que contemplassem projetos, programas, abordagens, instrumentos, questões. A preocupação de fundo se caracterizou pelo questionamento acerca da formação contemporânea da profissão, tendo em vista as novas relações exigidas, por um lado, entre o edifício e a cidade e, por outro, pelas conformações urbanas que, articulando territórios formais e informais, abrigam hoje na América Latina 85% da população.

A escala e a complexidade dos problemas urbanos adquiriram, nas últimas décadas, uma velocidade de crescimento cuja aceleração é contínua e exponencial. No que se refere tanto à construção dos edifícios como ao desenho das cidades e intervenção em territórios informais, verifica-se que o desenho no coletivo e as lógicas que emergem dos raciocínios multidisciplinares, transdisciplinares e interdisciplinares, são sempre mais inteligentes e eficazes que processos nos quais uma única variável busca prevalecer sobre outras.

Conforme esclareceu o linguista José Luiz Fiorin (2008), a multidisciplinaridade ocorre quando várias disciplinas analisam um dado objeto, sem que haja ligação necessária entre essas abordagens. A interdisciplinaridade opera na convergência, na complementação, provocando a transferência de conceitos teóricos e de metodologias e a combinação de áreas. Quando as fronteiras das disciplinas se diluem e se amalgamam, ocorre a transdisciplinaridade.

Com efeito, talvez possamos entender que a natureza contemporânea da profissão da arquitetura e urbanismo não seja a de determinar, sobrepor, ditar um desenho e uma forma como resposta a uma determinada demanda. O projeto de arquitetura e urbanismo, nos dias de hoje, vem ganhando cada vez mais sentido nas circunstâncias na quais sua atuação é direcionada para a articulação, qualificação e síntese de saberes. Quando é capaz de, coletivamente, propor formas, técnicas, materialidades, aos conhecimentos e proposições formulados no entrosamento entre as mais variadas áreas do conhecimento, estas também, formais ou informais.

Como posicionar-se diante dessas novas circunstâncias? Os artigos selecionados para esta edição pontuam algumas dessas questões. Em Maquetes de papelão no estudo de forma, espaço e luz: um exercício estruturado aplicado em Projeto de Arquitetura do primeiro ano, as autoras abordam os modos de execução de experimentos projetuais no ensino, executados no âmbito de uma disciplina de Projeto de Arquitetura e Urbanismo, a partir do uso de materiais simples, com o objetivo de evidenciar aspectos da composição formal em arquitetura.

Já os artigos UVA Ilusión Verde: interações ambiente-comportamento em uma praça e Duvidando da cidade: uma experiência pedagógica de leituras e apropriações do espaço urbano contemporâneo exploram aspectos da percepção e apropriação dos espaços públicos da cidade. Os estudos do primeiro operam no âmbito do diálogo multidisciplinar, trazendo instrumentos trazidos da Psicologia Ambiental para a análise da qualidade de uma praça pública em Medellín, na Colômbia. No segundo texto, o que se pretende é a apresentação de uma possível cartografia pedagógica, resultado de práticas desenvolvidas em três disciplinas sequenciais do curso de Arquitetura e Urbanismo do Senac.

Outra dupla de artigos, A UnB de Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer e Os saberes profissionais do Professor-Arquiteto na disciplina de Projeto de Arquitetura, oferece perspectivas a partir da figura de professores. Reconstituindo a história da Universidade de Brasília (UnB), o primeiro artigo procura “os meandros e conexões” entre dois fortes protagonistas da cultura e da arquitetura brasileiras e o período inicial da universidade. Na busca por mapear aspectos da prática profissional do Professor-Arquiteto, o segundo artigo observa sistematicamente a atuação de dois profissionais, um mais jovem e outro mais experiente.

O desenho participativo com grupos sociais autoprodutores de espaço na região metropolitana de Belo Horizonte é o foco do artigo: Como projetar com pessoas que vivem em áreas socialmente vulneráveis? Nele discutem-se os desafios e reflexões enfrentados pelo Escritório de Integração, que presta assessoria técnica direta e desenvolve projetos nesse contexto. Já em Aprender a planear a cidade inclusiva, os autores, provenientes das áreas de Meio Ambiente e das Ciências da Educação, discutem a função social da arquitetura e do urbanismo como “catalisadores de uma sociedade mais justa e equitativa”, em um mundo onde as cidades se tornaram, ao mesmo tempo, o principal local de oportunidades, mas também de exclusão e segregação.

A preocupação com o modo como as pessoas se comportam em situações de emergência, em especial na busca por rotas de fuga dos edifícios é explorada em A evacuação emergencial em edifícios históricos e o comportamento humano: uma revisão de literatura. Trata-se de um estudo interdisciplinar que escolhe como desafio de análise o caso dos edifícios tombados.

O conjunto das discussões reunidas sob a forma de artigos, nesta primeira edição dos Cadernos de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo de 2018, traduz uma preocupação crescente no desenvolvimento de ferramentas para a compreensão, em várias dimensões, do comportamento, da percepção e do protagonismo das pessoas. “Projetar com” vai ganhando cada vez mais sentido em relação a “projetar para”.

Como Vandana Shiva comenta em sua entrevista para a Play Ground (2018), “[...] Precisamos de conhecimentos sobre como cuidar. Isso é conhecimento. [...] Precisamos de conhecimentos de como compartilhar. Essa é uma necessidade que teremos cada vez mais no futuro. ”

Cuidar, desenhar no coletivo, estudar o comportamento e a percepção das pessoas, entender o papel das professoras e dos professores no ensino da arquitetura e urbanismo são as dimensões humanas que, aos poucos, a formação na área vai discutindo, incorporando, e encontrando caminhos para se tornar realidade sob a forma de realidade construída.

Ana Gabriela Godinho Lima

Palavras-chave


CadernosPós; Editorial

Texto completo:

PDF

Apontamentos

  • Não há apontamentos.

Comentários sobre o artigo

Visualizar todos os comentários


Direitos autorais 2018 Ana Gabriela Godinho Lima