FUNDAMENTOS DA INTERDISCIPLINARIDADE: APONTAMENTOS HISTÓRICOS, CONCEITUAIS, METODOLÓGICOS E POLÍTICOS

Autores

Palavras-chave:

interdisciplinaridade, economia cognitiva, epistemologia, história da ciência, capitalismo digital

Resumo

O artigo analisa a emergência e o desenvolvimento da interdisciplinaridade como forma de organização do trabalho intelectual desde o início do século XIX até o atual contexto do capitalismo digital. O estudo parte da consolidação da ciência moderna e da formação da universidade estatal para compreender como as relações entre Estado, capital e academia moldaram práticas colaborativas e reconfiguraram a produção do conhecimento. A interdisciplinaridade, nesse percurso, é examinada não apenas como ideal epistemológico, mas como expressão histórica da divisão e da coletivização do trabalho científico, marcada por tensões entre autonomia e instrumentalização. Desde o século XIX, a intensificação das políticas de industrialização e a emergência das ciências aplicadas promoveram formas integradas de investigação, subordinadas às demandas do Estado e do capital. A pesquisa científica passou a ser planejada segundo objetivos estratégicos e produtivos, transformando-se em um campo de investimento e controle. Nos séculos XIX e XX, observam-se momentos de inflexão decisivos: as pesquisas estatais em potências como Estados Unidos, Reino Unido e França; o desenvolvimento do capitalismo industrial e financeiro; o Projeto Manhattan e suas implicações éticas e organizacionais; e, posteriormente, as políticas da UNESCO e da OCDE, que institucionalizaram a inter e a transdisciplinaridade como diretrizes internacionais para o ensino e a pesquisa. Esses marcos evidenciam como a interdisciplinaridade foi apropriada como instrumento de racionalização da produção científica, submetendo-a a parâmetros de eficiência, avaliação e produtividade. Na segunda metade do século XX, o produtivismo acadêmico consolidou a lógica de mensuração e desempenho na pesquisa, aproximando-a das práticas empresariais e do modelo de gestão do trabalho. Essa dinâmica resultou na padronização dos paradigmas científicos, na regulação dos tempos de pesquisa e na redução da autonomia dos pesquisadores. A interdisciplinaridade, que inicialmente pretendia superar fronteiras disciplinares e promover integração cognitiva, passou a ser incorporada como técnica de gestão da inovação, subordinada a métricas e políticas de fomento. A reflexão teórica do artigo também aborda os desafios epistemológicos da coerência e consistência entre as disciplinas envolvidas em práticas interdisciplinares. A migração de conceitos entre diferentes campos do saber, bem como a tradução e adaptação de métodos, geram conflitos teóricos e demandam uma permanente reavaliação dos fundamentos conceituais de cada área. As trocas entre ciências naturais, sociais, humanas e artes revelam tanto possibilidades de avanço quanto tensões na compatibilização dos modelos de conhecimento. O texto conclui que a interdisciplinaridade, quando sustentada por princípios éticos e dialógicos, é condição necessária para enfrentar a complexidade cognitiva e social contemporânea. Entretanto, sua efetividade depende da defesa da autonomia universitária e da liberdade acadêmica frente ao avanço da economia cognitiva e à incorporação das lógicas de exploração e controle produtivo dentro da própria estrutura universitária. A resistência a essa subsunção torna-se fundamental para preservar a integridade do conhecimento e o papel emancipador da ciência na sociedade.

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Biografia do Autor

Beatriz Alencar d'Araújo, UFMG

Doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestra em Town and Regional Planning pela Iowa State University e graduada em Arquitetura pela Universidade Federal de Minas Grais (UFMG). Professora titular do Programa de Pós-Graduação em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável da UFMG. Atua nas áreas de Planejamento Urbano e Regional, Arquitetura
e Urbanismo, com destaque para estudos sobre teoria do planejamento, patrimônio sustentável e políticas públicas.

Carla Viviane da Silva, Universidade Federal de Minas Gerais

Doutoranda em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável e bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Membro do Comitê Brasileiro do Icomos/Brasil, atua em projetos voltados para a preservação de acervos históricos, acessibilidade informacional e sustentabilidade patrimonial. Possui experiência em gestão da informação, arquivologia, preservação documental, digitalização de acervos e desenvolvimento de sistemas de organização e recuperação da informação.

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Publicado

2026-07-15

Como Citar

Couto, B. A. d'Araújo, & Angelo, C. V. da S. (2026). FUNDAMENTOS DA INTERDISCIPLINARIDADE: APONTAMENTOS HISTÓRICOS, CONCEITUAIS, METODOLÓGICOS E POLÍTICOS: . Revista Trama Interdisciplinar, 16(2), 174–185. Recuperado de https://editorarevistas.mackenzie.br/tint/article/view/18386